ENEM 2017 · Linguagens · Literatura · literatura brasileira
Questão 18 do ENEM 2017
Resposta: letra A. O poema 'O mundo revivido' de Haroldo Dobal retrata a evocação nostálgica de um passado rural, marcado por imagens de uma infância ou juventude perdida: vacas, açudes, cobras, constelações e primos. O eu lírico revive esse mundo com saudade, mas destaca que a lembrança não traz de volta o que foi perdido ('revivido em vão').
**O mundo revivido**
Sobre esta casa e’as árvores que o tempo
esqueceu de levar. Sobre o curral
de pedra e paz e de outras vacas tristes
chorando a lua e a noite sem bezerros.
Sobre a parede larga deste açude
onde outras cobras verdes se arrastavam,
e pondo o sol nos seus olhos parados
iam colhendo sua safra de sapos.
Sob as constelações do sul que a noite
armava e desarmava: as Três Marias,
o Cruzeiro distante e o Sete-Estrelo.
Sobre este mundo revivido em vão,
a lembrança de primos, de cavalos,
de silêncio perdido para sempre.
DOBAL, H. **A província deserta** . Rio de Janeiro: Artenova, 1974.
No processo de reconstituição do tempo vivido, o eu lírico projeta um conjunto de imagens cujo lirismo se fundamenta no
- AInventário das memórias evocadas afetivamente.Resposta correta
- BReflexo da saudade no desejo de voltar à infância.
- CSentimento de inadequação com o presente vivido.
- DRessentimento com as perdas materiais e humanas.
- ELapso no fluxo temporal dos eventos trazidos à cena.
Como resolver a questão 18 passo a passo?
O conceito que resolve
O lirismo do poema se constrói pela memória afetiva, ou seja, a capacidade de resgatar e descrever elementos do passado com carga emocional. O eu lírico não apenas enumera objetos ou pessoas (como faz um inventário), mas evoca cenas e sentimentos vinculados a eles, criando uma atmosfera de nostalgia. A chave está no verbo 'reviver' e na expressão 'lembrança de primos, de cavalos, de silêncio perdido', que mostram um processo de reconstrução subjetiva do tempo vivido, não uma crítica ao presente nem um ressentimento direto. O erro de 'em vão' reforça que não há ilusão de retorno, mas sim a dor da perda irreparável.
Como chegar na resposta
- Identificar o tema central: O poema fala de um passado rural (árvores, vacas, açudes, constelações) que não existe mais, evocado pelo eu lírico. A palavra-chave é 'revivido', que indica um ato de memória, não de crítica ou revolta.
- Analisar os elementos evocados: Não são apenas fatos ou objetos (como em um inventário), mas cenas carregadas de emoção ('vacas tristes chorando a lua', 'silêncio perdido'). Isso aponta para memória afetiva, não para uma lista fria ou um desejo de regresso literal.
- Excluir alternativas que distorcem o tom: O poema não é uma queixa contra o presente (C), nem um ódio pelas perdas (D, que pressupõe rancor), nem uma falha na linha do tempo (E, que sugere descontinuidade, não evocação). Também não é um desejo de voltar à infância (B), e sim a constatação de que o passado se foi.
- Focar na estrutura do lirismo: O eu lírico recria o mundo ('armava e desarmava' as constelações, 'colhendo safra de sapos'), mas o adjetivo 'em vão' mostra que a memória não traz de volta o que foi perdido. Isso reforça a ideia de inventário emocional, não de ação ou crítica.
- Testar a alternativa A: 'Inventário das memórias evocadas afetivamente' captura tanto a enumeração de elementos ('árvores', 'vacas', 'primos') quanto a carga emocional ('tristes', 'perdido', 'chorando'). É a única que não impõe ao texto um sentimento que ele não expressa (como ódio ou desejo de regresso).
Por que cada alternativa
- ACorreta. O poema faz um inventário (lista) de elementos do passado ('casa', 'árvores', 'vacas', 'primos'), mas não de forma neutra: cada imagem é carregada de afeto ('tristes', 'chorando', 'perdido'). O comando pede o fundamento do lirismo, que aqui é justamente essa evocação emocional de memórias, não uma análise do tempo ou uma crítica. O erro de outras alternativas é ignorar que o texto não é um manifesto, uma queixa ou uma teoria sobre tempo.
- BErro: Confunde nostalgia com desejo de regresso. A alternativa sugere que o eu lírico quer 'voltar à infância', mas o poema diz 'revivido em vão', ou seja, sabe que o passado não volta. A saudade está presente, mas não há apelo por um retorno literal. Quem escolhe B lê o texto como se fosse um desejo de criança ('brincar de novo'), não como a dor da perda irreversível.
- CErro: Projeta crítica ao presente onde não há. O poema não fala do 'presente vivido' como algo inadequado ou ruim. Ele revive o passado, sim, mas não para compará-lo ao agora. A ausência de juízo sobre o presente elimina qualquer ideia de 'inadequação'. Esse erro surge de quem busca conflitos onde há apenas melancolia.
- DErro: Transforma saudade em ressentimento. A alternativa exige que o poema expresse 'ódio' ou 'raiva' pelas perdas, mas o tom é de tristeza serena, não de revolta. Frases como 'vacas tristes chorando a lua' são poéticas, não agressivas. Quem cai em D lê o texto como se fosse um diário de reclamações, não como poesia lírica.
- EErro: Interpreta 'reviver' como falha temporal. A alternativa sugere que há um 'lapso' ou ruptura no tempo, mas o poema mostra um processo consciente de memória ('a lembrança de...'). Não há sugestão de que o tempo 'engana' ou 'falha'; o eu lírico escolhe reviver o passado. Esse erro vem de quem associa 'reviver' a algo mecânico ou defeituoso, quando na verdade é um ato voluntário e doloroso.
Onde essa questão derruba a maioria
A armadilha está na palavra 'reviver': ela pode levar a dois equívocos graves. Primeiro, entender que o eu lírico consegue trazer o passado de volta (o que levaria à alternativa B ou E, que falam de tempo ou desejo). Segundo, confundir 'reviver' com 'revivificar' (fazer voltar à vida), o que distorce o tom melancólico do poema. Na verdade, 'reviver' aqui é evocar, não recuperar. Além disso, o 'em vão' é crucial: ele nega qualquer possibilidade de retorno, eliminando alternativas que pressupõem ação (B, D) ou solução (C).
O que estudar se você errou
Relia os dois últimos versos: *'Sobre este mundo revivido em vão, / a lembrança de primos, de cavalos, / de silêncio perdido para sempre.'* A palavra 'em vão' é a chave. Ela mostra que não há ilusão de retorno, apenas a dor da memória. Se você marcou outra alternativa, pergunte: o poema está falando de o que é lembrado (A) ou de o que é sentido (as outras)? A resposta está na enumeração afetiva dos elementos, não em uma análise psicológica ou filosófica.
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