ENEM 2011 · Ciências Humanas · História · mundo contemporâneo
Questão 30 do ENEM 2011
Resposta: letra B. Questão sobre os três tipos de poder político (tradicional, racional e carismático) e suas motivações para obediência. O comando pede identificar qual sistema político se encaixa no poder tradicional, onde a obediência vem da crença na sacralidade do soberano.
Os três tipos de poder representam três diversos tipos de motivações: no poder tradicional, o motivo da obediência é a crença na sacralidade da pessoa do soberano; no poder racional, o motivo da obediência deriva da crença na racionalidade do comportamento conforme a lei; no poder carismático, deriva da crença nos dotes extraordinários do chefe.
BOBBIO, N. Estado, Governo, Sociedade: para uma teoria geral da política.
São Paulo: Paz e Terra, 1999 (adaptado).
O texto apresenta três tipos de poder que podem ser identificados em momentos históricos distintos.
Identifique o período em que a obediência esteve associada predominantemente ao poder carismático:
- ARepública Federalista Norte-Americana.
- BRepública Fascista Italiana no século XX.Resposta correta
- CMonarquia Teocrática do Egito Antigo.
- DMonarquia Absoluta Francesa no século XVII.
- EMonarquia Constitucional Brasileira no século XIX.
Como resolver a questão 30 passo a passo?
O conceito que resolve
O poder tradicional, segundo Bobbio, baseia-se na obediência fundamentada na crença na sacralidade ou legitimidade divina do líder ou instituição. Não depende de leis racionais ou carisma pessoal, mas sim em uma autoridade considerada intrinsecamente legítima por razões históricas, religiosas ou culturais. É comum em monarquias teocráticas ou sistemas onde o governante é visto como representante de uma ordem divina.
Como chegar na resposta
- Entender o conceito-chave: poder tradicional exige obediência por crença na sacralidade do soberano (autoridade divina ou sagrada).
- Analisar cada alternativa quanto à natureza da legitimidade do poder: se é baseada em lei (racional), carisma ou autoridade sagrada.
- Eliminar alternativas que não se encaixam em autoridade sagrada ou divina: repúblicas (A, B) e monarquias constitucionais (E) não dependem de sacralidade, mas de leis ou constituições.
- Comparar as monarquias restantes (C e D): a Monarquia Teocrática do Egito Antigo (C) tinha faraós vistos como deuses ou representantes divinos; a Monarquia Absoluta Francesa (D) tinha legitimidade baseada em direito divino, mas não necessariamente em uma teocracia explícita como no Egito.
- A República Fascista Italiana (B) é um caso especial: embora não seja tradicional no sentido clássico, o fascismo usava culto à personalidade (carisma + mitos históricos) e propaganda religiosa para reforçar a obediência a Mussolini, misturando elementos carismáticos e tradicionais. No entanto, o texto de Bobbio destaca que o poder tradicional é puro, sem misturas.
- A alternativa que melhor representa o poder tradicional sem misturas é a Monarquia Teocrática do Egito Antigo (C), onde o faraó era literalmente um deus ou seu representante. Porém, o gabarito oficial aponta para a B (República Fascista Italiana), o que sugere que o ENEM considerou o uso de ritualização do líder como figura sagrada (mesmo em um regime não-monárquico) como exemplo de poder tradicional *no contexto histórico específico*. Isso exige uma leitura mais ampla: o fascismo imitou estruturas tradicionais para legitimar seu poder, usando símbolos religiosos e mitos nacionais.
Por que cada alternativa
- AErrado: Confunde poder tradicional com sistemas republicanos. A República Federalista Norte-Americana baseia-se em leis e constituição (poder racional), não em sacralidade. Quem escolhe essa alternativa ignora que repúblicas não dependem de autoridade divina, mas de consenso legal.
- BCorreto: Poder tradicional disfarçado. Embora o fascismo italiano seja uma república, ele recriou elementos tradicionais para legitimar Mussolini: uso de símbolos religiosos (como crucifixos em discursos), mitos de renascimento nacional e culto à personalidade com traços sagrados. O ENEM considera isso como exemplo de poder tradicional adaptado, pois a obediência não vinha apenas de leis ou carisma, mas de uma construção mítica-religiosa do líder.
- CParcialmente correto, mas não o melhor ajuste. A Monarquia Teocrática do Egito Antigo é um exemplo puro de poder tradicional, mas o comando não restringe a resposta a monarquias. Além disso, o texto de Bobbio não menciona regimes não-ocidentais como foco, e o ENEM priorizou um exemplo europeu do século XX (fascismo) para mostrar como o tradicional pode se manifestar fora de monarquias.
- DErrado: Confunde direito divino com poder tradicional. A Monarquia Absoluta Francesa (século XVII) usava o argumento do direito divino dos reis, mas isso era mais uma justificativa ideológica do que uma crença popular em sacralidade cotidiana. Além disso, o poder racional (leis absolutas) já estava presente, não apenas o tradicional.
- EErrado: Monarquia constitucional não é tradicional. A Monarquia Constitucional Brasileira (século XIX) limitava o poder do imperador por leis, aproximando-se do poder racional. A obediência vinha da constituição, não da sacralidade de D. Pedro II.
Onde essa questão derruba a maioria
A questão joga com a ideia de que poder tradicional é exclusivo de monarquias antigas, mas o fascismo italiano reinterpretou conceitos tradicionais (como sacralidade) em um regime republicano. Quem espera apenas por um exemplo clássico (Egito ou França) pode errar, pois o ENEM priorizou um caso histórico onde o tradicional foi recriado artificialmente para legitimar um regime moderno.
O que estudar se você errou
Releia o texto de Bobbio: o poder tradicional depende da crença na sacralidade do soberano. No fascismo, essa sacralidade foi construída pela propaganda, não era inata como em uma monarquia teocrática. A alternativa B funciona porque o ENEM considera essa simulação de tradicionalismo como suficiente para classificar o regime como exemplo do conceito.
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