ENEM 2009 · Ciências Humanas · História · colonização
Questão 65 do ENEM 2009
Resposta: letra A. A questão aborda conflitos raciais durante a Independência do Brasil, destacando uma trova popular do Recife que reflete tensões entre escravos, negros forros e a elite branca. O texto aponta para um contexto de insatisfação e desejo de mudança social, vinculado à revolta escrava no Haiti, que circulava entre as camadas populares oprimidas.
No tempo da independência do Brasil, circulavam nas classes populares do Recife trovas que faziam alusão à revolta escrava do Haiti:
Marinheiros e caiados
Todos devem se acabar,
Porque só pardos e pretos
O país hão de habitar.
AMARAL, F. P. do. Apud CARVALHO, A. Estudos pernambucanos. Recife: Cultura Acadêmica, 1907.
O período da independência do Brasil registra conflitos raciais, como se depreende
- ADos rumores acerca da revolta escrava do Haiti, que circulavam entre a população escrava e entre os mestiços pobres, alimentando seu desejo por mudanças.Resposta correta
- BDa rejeição aos portugueses, brancos, que significava a rejeição à opressão da Metrópole, como ocorreu na Noite das Garrafadas.
- CDo apoio que escravos e negros forros deram à monarquia, com a perspectiva de receber sua proteção contra as injustiças do sistema escravista.
- DDo repúdio que os escravos trabalhadores dos portos demonstravam contra os marinheiros, porque estes representavam a elite branca opressora.
- EDa expulsão de vários líderes negros independentistas, que defendiam a implantação de uma república negra, a exemplo do Haiti.
Como resolver a questão 65 passo a passo?
O conceito que resolve
A Independência do Brasil (1822) não foi um processo homogêneo: enquanto a elite branca buscava autonomia política de Portugal, escravos, negros forros e mestiços pobres viviam sob opressão racial e social. Nesse contexto, ideias revolucionárias — como a revolta escrava no Haiti (1791–1804) — circulavam entre as camadas marginalizadas, alimentando desejos de transformação radical. A trova citada ('Marinheiros e caiados') exemplifica essa tensão: ela não se limita a criticar os portugueses (brancos), mas também os 'marinheiros' (simbolizando a elite ou forças opressoras) e aponta para um futuro onde apenas 'pardos e pretos' habitariam o país, sugerindo uma revolta contra a exclusão racial. O comando da questão pede que identifiquemos como conflitos raciais se manifestaram nesse período, não apenas como rejeição à Metrópole, mas como resistência estrutural contra a escravidão e a hierarquia racial.
Como chegar na resposta
- Analisar o texto da trova: Ela menciona 'marinheiros e caiados' (brancos e negros/mestiços) e prevê um futuro onde 'só pardos e pretos' habitariam o país. Isso indica uma crítica à exclusão racial e um desejo de mudança radical, não apenas política (contra Portugal), mas social (contra a ordem racial vigente).
- Contexto histórico do Haiti: A revolta escrava no Haiti (1791–1804) foi um evento traumático para a elite brasileira, pois mostrou que escravos podiam liderar revoluções bem-sucedidas. Esse medo circulava entre as camadas populares brasileiras, como sugere a trova.
- Atores envolvidos: A trova não fala de 'portugueses' em geral, mas de 'marinheiros' (possivelmente soldados ou elite) e 'caiados' (negros e mestiços). O comando menciona 'classes populares do Recife', ou seja, escravos, negros forros e mestiços pobres — grupos que sofriam com a escravidão e a discriminação racial.
- Comparar com as alternativas: Precisamos encontrar a alternativa que explique conflitos raciais (não apenas contra Portugal) e que mencione a circulação de ideias entre as camadas populares oprimidas. Alternativas que falam só de rejeição aos portugueses ou de apoio à monarquia não capturam a dimensão racial do texto.
- Eliminar alternativas equivocadas: Por exemplo, a alternativa que fala em 'expulsão de líderes negros' (E) não tem base no texto; a que menciona 'apoio à monarquia' (C) contraria a crítica implícita na trova; e a que fala em 'rejeição aos portugueses' (B) é parcial, pois o texto vai além disso.
Por que cada alternativa
- ACorreta. A alternativa explica que os rumores sobre a revolta do Haiti circulavam entre escravos e mestiços pobres, alimentando seu desejo por mudanças radicais (como sugere a trova: 'Todos devem se acabar'). O erro comum aqui seria ignorar que o texto fala de 'classes populares' e não apenas de elite, ou subestimar o papel das ideias haitianas na formação de conflitos raciais. Resolve o comando porque conecta diretamente o texto à resistência racial e social das camadas oprimidas.
- BErro: Confunde conflito racial com nacionalismo. A alternativa fala apenas da 'rejeição aos portugueses', mas o texto da trova não menciona isso diretamente. Além disso, a 'Noite das Garrafadas' (1835, Rio de Janeiro) foi um conflito entre brasileiros (liberais x conservadores), não entre raças. O erro aqui é ler o comando como uma questão de independência política, ignorando a dimensão racial explícita na trova.
- CErro: Inverte a realidade histórica. A alternativa diz que escravos e negros forros 'apoiavam a monarquia' para se proteger, mas a trova sugere o contrário: uma crítica à ordem vigente (incluindo a monarquia, que mantinha a escravidão). O erro é projetar uma aliança que não existe no texto, além de ignorar que a monarquia não era aliada dos escravos.
- DErro: Distorce os atores e a relação social. A alternativa fala de 'repúdio dos escravos dos portos contra marinheiros' como elite opressora, mas a trova não faz essa distinção clara. Além disso, 'marinheiros' aqui podem simbolizar qualquer força opressora (incluindo brasileiros brancos), não apenas portugueses. O erro é criar uma divisão artificial entre 'escravos' e 'marinheiros' sem base no texto.
- EErro: Inventar fatos não mencionados. A alternativa fala em 'expulsão de líderes negros' e 'república negra', mas o texto não menciona nenhum líder específico nem um projeto republicano negro. O erro é extrapolar a revolta do Haiti para um contexto brasileiro que não está no texto, além de ignorar que a trova é uma crítica geral, não um plano político.
Onde essa questão derruba a maioria
A questão pode enganar quem focar apenas na 'independência' como um movimento unificado contra Portugal, ignorando as tensões raciais. Outro ponto é a menção ao Haiti: muitos podem associá-lo apenas a um evento distante, sem perceber que suas ideias circulavam entre as camadas populares brasileiras, alimentando conflitos internos. A pegadinha está em reduzir o comando a uma questão de nacionalismo, quando ele exige análise das relações raciais e sociais no período.
O que estudar se você errou
Releia a trova com atenção: ela não fala de 'portugueses', mas de 'marinheiros e caiados' (brancos e negros/mestiços) e prevê um futuro sem brancos. Isso indica uma crítica à ordem racial, não apenas política. Também lembre que o Haiti foi usado como exemplo de revolta bem-sucedida, o que assustava a elite brasileira — mas inspirava as camadas oprimidas. Se a alternativa não menciona 'classes populares', 'conflitos raciais' ou a circulação de ideias, ela provavelmente está errada.
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