ENEM 2024 · Linguagens · Literatura · movimentos literários
Questão 35 do ENEM 2024
Resposta: letra D. O trecho mostra um diálogo tenso entre Aurélia e Seixas, onde ela revela que o casamento entre os dois foi uma transação motivada pela riqueza dela e pela necessidade de Seixas de garantir status social. Aurélia desmascara a relação como uma farsa, onde o amor e a castidade são substituídos por interesses materiais, expondo a hipocrisia e a mercantilização do casamento na sociedade da época.
— Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse minha mãe. Meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...
[...] — Ou de outra mais rica! — disse ela, retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.
A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia ringir-lhe nos lábios como aço.
— Aurélia! Que significa isto?
— Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.
— Vendido! — exclamou Seixas ferido dentro d’alma.
— Vendido, sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica; sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento.
ALENCAR, J. Senhora. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 2003.
Ao tematizar o casamento, esse fragmento reproduz uma concepção de literatura romântica evidenciada na
- Adefesa da igualdade de gêneros.
- Bimportância atribuída à castidade.
- Cindignação com as injustiças sociais.
- Dinterferência da riqueza sobre o amor.Resposta correta
- Evalorização das relações interpessoais.
Como resolver a questão 35 passo a passo?
O conceito que resolve
Na literatura romântica brasileira, especialmente no romance urbano, é comum a crítica às instituições sociais que sufocam os sentimentos genuínos, como o casamento burguês. O Romantismo frequentemente explora temas como a idealização do amor, a oposição entre aparência e realidade, e a denúncia das estruturas que corrompem as relações humanas. Nesse fragmento, Alencar expõe como a riqueza distorce o amor e a moralidade, revelando uma visão cínica e desiludida sobre o casamento, típica da crítica romântica às convenções sociais da elite do século XIX.
Como chegar na resposta
- Identificar os personagens e a situação apresentada: Aurélia e Seixas discutem seu casamento, que se revela uma transação financeira.
- Analisar as falas de Aurélia: ela afirma ter comprado Seixas por 100 contos de réis, destacando a riqueza como motivo central da relação, e não o amor ou a castidade.
- Observar a reação de Seixas e o tom do diálogo: a relação é descrita como uma 'comédia' e uma 'mistificação', revelando a falsidade por trás da fachada de casamento tradicional.
- Relacionar o trecho ao contexto histórico-literário: o Romantismo brasileiro, especialmente em obras como *Senhora*, critica as estruturas sociais que priorizam interesses materiais sobre valores como amor e honestidade.
- Eliminar alternativas que não condizem com o texto: por exemplo, a igualdade de gêneros ou a indignação social não são temas centrais aqui, mas sim a corrupção do amor pela riqueza.
Por que cada alternativa
- AErro: Confusão entre crítica social e proposta de igualdade. O texto não defende a igualdade de gêneros, mas expõe como a desigualdade (representada pela riqueza) destrói a relação. A literatura romântica crítica não propõe soluções igualitárias, mas desmascara hipocrisias. Além disso, Aurélia não age por princípios de igualdade, mas por vingança e desilusão.
- BErro: Leitura superficial do tema da castidade. Embora Aurélia mencione a traição, o foco não é a castidade em si, mas a transação financeira que anula qualquer noção de pureza ou amor verdadeiro. A castidade é secundária aqui; o problema é a mercantilização da relação.
- CErro: Generalização da crítica social. O texto não aborda injustiças sociais em geral (como pobreza ou exploração de classes), mas sim a corrupção de um casamento específico pela riqueza. A indignação está direcionada à relação pessoal, não a um sistema maior.
- DCorreta: Interferência da riqueza como tema central. O diálogo gira em torno da riqueza como motivo do casamento ('comprei-o', 'custou-me cem contos de réis', 'daria o dobro por este momento'). A literatura romântica urbana, como em *Senhora*, frequentemente explora como o dinheiro distorce valores como amor e honra, e esse é o núcleo do trecho.
- EErro: Idealização equivocada das relações. O texto não valoriza as relações interpessoais, mas as desconstroi: a relação entre Aurélia e Seixas é apresentada como uma farsa ('comédia', 'mistificação'). A literatura romântica crítica, neste caso, não celebra, mas denuncia a falsidade das aparências.
Onde essa questão derruba a maioria
A alternativa B pode atrair quem foque apenas na menção à traição e à castidade, ignorando que o texto desvia o debate para a transação financeira. Já a alternativa C pode seduzir quem associe crítica social a qualquer desmascaramento, mas o texto não aborda injustiças coletivas. A pegadinha maior está em confundir a desconstrução da relação (que parece valorizar a 'realidade') com uma defesa das relações interpessoais (alternativa E).
O que estudar se você errou
Relia o diálogo com atenção às palavras-chave: 'comprei-o', 'cem contos de réis', 'barato', 'riqueza'. Esses termos não deixam dúvidas de que o motor da relação é o dinheiro, e não valores como amor ou castidade. Pergunte-se: o que o texto critica diretamente? Não é a traição em si, mas o fato de o casamento ter sido uma compra. Isso elimina B e E. Em seguida, verifique se a crítica é geral (C) ou específica (D).
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