ENEM 2019 · Linguagens
Questão 8 do ENEM 2019
Resposta: letra B. A carta de Tobias Gregson a Sherlock Holmes descreve um crime misterioso sem pistas claras, usando uma série de negações para destacar o que não foi encontrado na cena: nenhuma marca de sangue, feridas, sinais de assalto ou explicação óbvia para a entrada do homem na casa vazia. O objetivo da carta é pedir ajuda para resolver o caso, e as negações servem para delimitar o que ainda precisa ser investigado.
Meu caro Sherlock Holmes, algo horrível aconteceu às três da manhã no Jardim Lauriston. Nosso homem que estava na vigia viu uma luz às duas da manhã saindo de uma casa vazia. Quando se aproximou, encontrou a porta aberta e, na sala da frente, o corpo de um cavalheiro bem vestido. Os cartões que estavam em seu bolso tinham o nome de Enoch J. Drebber, Cleveland, Ohio, EUA. Não houve assalto e nosso homem não conseguiu encontrar algo que indicasse como ele morreu. Não havia marcas de sangue, nem feridas nele. Não sabemos como ele entrou na casa vazia. Na verdade, todo assunto é um quebra-cabeça sem fim. Se puder vir até a casa seria ótimo, se não, eu lhe conto os detalhes e gostaria muito de saber sua opinião. Atenciosamente, Tobias Gregson.
**DOYLE, A. C.** _Um estudo em vermelho_. Cotia: Pé de Letra, 2017
Considerando o objetivo da carta de Tobias Gregson, a sequência de enunciados negativos presente nesse texto tem a função de
- ARestringir a investigação, deixando-a sob a responsabilidade do autor da carta.
- BRefutar possíveis causas da morte do cavalheiro, auxiliando na investigação.Resposta correta
- CIdentificar o local da cena do crime, localizando-o no Jardim Lauriston.
- DIntroduzir o destinatário da carta, caracterizando sua personalidade.
- EApresentar o vigia, incluindo-o entre os suspeitos do assassinato.
Como resolver a questão 8 passo a passo?
O conceito que resolve
No texto, os enunciados negativos ('não houve assalto', 'não conseguiu encontrar algo que indicasse como ele morreu', 'não havia marcas de sangue', etc.) têm a função de eliminar hipóteses óbvias ou comuns para um crime, forçando o leitor (nesse caso, Holmes) a pensar além do lugar-comum. Isso é típico de narrativas policiais e de mistério, onde o detetive precisa descartar o óbvio para chegar à solução não convencional. Aqui, as negações não são aleatórias: elas auxiliam a investigação ao mostrar o que não se encaixa no padrão esperado, direcionando a atenção para detalhes menos óbvios.
Como chegar na resposta
- Identificar o objetivo da carta: Gregson não está contando uma história, mas pedindo ajuda para resolver um crime. O tom é de perplexidade ('todo assunto é um quebra-cabeça sem fim'), e ele depende da expertise de Holmes para preencher as lacunas.
- Analisar a função das negações: As frases negativas ('não houve assalto', 'não havia marcas de sangue', 'não sabemos como ele entrou') não servem para confundir, mas para sinalizar ausências. Elas eliminam causas típicas de morte ou invasão, como roubo ou briga física, e deixam em aberto a possibilidade de algo mais complexo (veneno, entrada por outra via, etc.).
- Conectar negações à investigação: Em um contexto de mistério, descartar o óbvio é o primeiro passo para investigar o extraordinário. As negações aqui preparam o terreno para que Holmes (ou o leitor) pense em alternativas não convencionais, como um crime planejado sem violência aparente ou um método de entrada não forçada.
- Descartar outras funções das negações: As alternativas A, C, D e E sugerem que as negações servem para restringir responsabilidades, localizar o crime, caracterizar personagens ou incluir suspeitos. Nenhuma delas explica por que um texto policial usaria negações sistematicamente senão para guiar a investigação ao eliminar o que já foi descartado.
- Testar a alternativa B: Se as negações refutam causas comuns da morte (assalto, feridas, sangue), elas auxiliam a investigação ao focar no que resta: um método de morte ou entrada não violento e não óbvio. Isso alinha com o gênero do texto (mistério) e com a função de uma carta que pede ajuda para resolver um caso.
Por que cada alternativa
- AErro: Confunde negação com delegação de responsabilidade. A carta não restringe a investigação para deixar tudo por conta de Holmes; pelo contrário, ela exige que ele use as informações (inclusive as negações) para agir. Além disso, Gregson diz 'gostaria muito de saber sua opinião', mostrando que ele precisa da ajuda, não que esteja delegando passivamente.
- BCorreta: As negações eliminam hipóteses óbvias (assalto, feridas, sangue) para direcionar a atenção a pistas não convencionais. Em um texto de mistério, descartar o esperado é essencial para chegar ao inesperado. A carta de Gregson não dá respostas, mas aponta o que não é a resposta, forçando Holmes a pensar fora da caixa. Isso é típico de narrativas policiais, onde o detetive precisa refutar o comum para encontrar o incomum.
- Co local já é mencionado no início ('no Jardim Lauriston'). Elas trabalham com o que não foi encontrado na cena, não com a geografia do crime. Além disso, a alternativa ignora o propósito investigativo das negações.
- DErro: Projeção de traços de personagem onde não há. As negações não caracterizam Holmes ou Gregson; elas descrevem fatos objetivos da cena do crime. A carta não usa negações para pintar um retrato psicológico, mas para delimitar o escopo do mistério. Essa alternativa pressupõe que o texto é uma análise de personalidade, quando na verdade é um relato de caso.
- EErro: Inversão de papéis e leitura tendenciosa. O vigia é mencionado como uma fonte de informação ('nosso homem que estava na vigia'), mas não há nenhuma negação que o inclua como suspeito. Pelo contrário: ele é apresentado como uma testemunha confiável ('nosso homem'), e as negações se referem ao que ele não encontrou, não a sua participação no crime.
Onde essa questão derruba a maioria
A questão joga com a expectativa de que o estudante veja as negações como meros detalhes descritivos (como em um texto jornalístico comum) e não como ferramentas narrativas ativas. Em um gênero como o mistério, negações repetidas não são decorativas: elas constroem o enigma ao eliminar o que já foi descartado. Além disso, alternativas como A e E tentam desviar a atenção para aspectos secundários (responsabilidade, suspeitas), enquanto a função real das negações é investigativa.
O que estudar se você errou
Relia as negações com atenção aos verbos e aos efeitos delas no todo. Pergunte-se: 'Para que serviriam essas frases negativas se não fosse para guiar a investigação?' Em um texto policial, o que não é dito muitas vezes é tão importante quanto o que é dito. Aqui, o que não aconteceu é crucial para entender o que deve ser investigado.
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