ENEM 2018 · Linguagens · Literatura
Questão 8 do ENEM 2018
Resposta: letra C. O diálogo entre dois personagens discute o significado da palavra 'famigerado', com um deles questionando o uso da palavra em linguagem coloquial, associando-a a um registro mais próximo do cotidiano ('fala de pobre, linguagem de em dia de semana'). O outro personagem esclarece que 'famigerado' significa 'importante', mas o primeiro busca entender como essa palavra é usada no dia a dia, fora de contextos formais ou ofensivos.
— Famigerado? \[…\]
— Famigerado é “inóxio”, é “célebre”, “notório”, “notável”…
— Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos…
— Pois… e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia de semana?
— Famigerado? Bem. É: “importante”, que merece louvor, respeito…
ROSA, G. Famigerado. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
Nesse texto, a associação de vocábulos da língua portuguesa a determinados dias da semana remete ao
- ALocal de origem dos interlocutores.
- BEstado emocional dos interlocutores.
- CGrau de coloquialidade da comunicação.Resposta correta
- DNível de intimidade entre os interlocutores.
- EConhecimento compartilhado na comunicação.
Como resolver a questão 8 passo a passo?
O conceito que resolve
O comando pergunta a que se refere a associação de vocábulos da língua portuguesa a 'dias da semana' no texto. Essa associação não é literal, mas sim uma metáfora para classificar o registro linguístico: 'dia de semana' (oposto a 'dia santo' ou 'domingo', que remete ao formal/religioso) representa a linguagem cotidiana, coloquial, usada fora de contextos solenes ou literários. O foco está no grau de formalidade ou informalidade da comunicação, não na origem geográfica, emoção, intimidade ou conhecimento prévio.
Como chegar na resposta
- Identificar a metáfora central: O personagem pergunta 'em fala de pobre, linguagem de em dia de semana', usando 'dia de semana' como sinônimo de linguagem cotidiana, informal. Isso contrasta com 'dia santo' (domingo), que no contexto brasileiro popularmente remete a algo mais formal ou religioso. A associação não é com dias específicos, mas com o registro linguístico (coloquial vs. formal).
- Analisar o contexto do diálogo: A discussão gira em torno do significado de 'famigerado' e como ele é usado na fala comum. O personagem não pergunta sobre origem geográfica (A), emoções (B), intimidade (D) ou conhecimento prévio (E), mas sim sobre como a palavra soa na linguagem do dia a dia.
- Eliminar alternativas por distração comum:
- A (Local de origem): O texto não menciona região, sotaque ou dialeto. A discussão é sobre significado e registro, não sobre onde os personagens são de.
- B (Estado emocional): Não há referência a sentimentos ou tons emocionais na fala. O foco é lexical e pragmático.
- D (Nível de intimidade): Intimidade poderia aparecer se houvesse piadas, apelidos ou confidências, mas o diálogo é sobre registro linguístico, não sobre proximidade entre os personagens. Eles até poderiam ser íntimos, mas o tema não é isso. Erro comum: confundir coloquialidade com informalidade emocional (ex.: 'fala de pobre' não é sobre intimidade, mas sobre registro social da linguagem).
Por que cada alternativa
- AErro: Confundir registro linguístico com origem geográfica. A alternativa sugere que a associação com 'dias da semana' indica onde os personagens são (ex.: nordestinos, paulistas). O texto não dá pistas de localidade, e a discussão é sobre como a palavra é usada, não sobre de onde vem. Quem escolhe A lê 'fala de pobre' e salta para 'origem', ignorando que o foco é o registro da linguagem.
- BErro: Projetar emoções onde não há. A alternativa atribui ao texto uma discussão sobre como os personagens se sentem (ex.: irritados, curiosos). O diálogo é técnico: um pergunta o significado coloquial, outro esclarece. Não há descrição de emoções ou tons afetivos. Quem marca B pode confundir a busca por significado com uma questão de humor ou frustração dos personagens.
- CResposta correta: Grau de coloquialidade. A associação 'dia de semana' (informal) x 'dia santo' (formal) classifica a linguagem em registros: o primeiro personagem quer saber como 'famigerado' soa na fala cotidiana, não literária. O texto usa a metáfora dos dias para contrastar linguagem coloquial (pobre, dia de semana) vs. formal (dia santo, linguagem de louvor/respeito). Isso resolve o comando porque explica por que os dias da semana são mencionados: para marcar o nível de formalidade.
- DErro: Intimidade não é o tema. A alternativa sugere que a linguagem reflete proximidade entre os personagens. No entanto, o diálogo não aborda confidências, apelidos ou cumplicidade. A discussão é sobre como uma palavra é usada em contextos sociais distintos (pobre x importante), não sobre laços pessoais. Quem escolhe D pode ler 'fala de pobre' e pensar em 'gíria de amigo', mas o texto não trata disso.
- EErro: Conhecimento compartilhado não explica a metáfora. A alternativa pressupõe que os personagens já sabem o que 'dia de semana' significa no contexto. Mas a metáfora é criativa e explicativa: o personagem usa 'dia de semana' para definir linguagem coloquial, não para pressupor que ambos já entendem essa associação. Quem marca E pode achar que o texto assume um código prévio entre eles, mas na verdade está construindo esse código na hora.
Onde essa questão derruba a maioria
A armadilha está em ler 'fala de pobre' e 'dia de semana' como indicadores de classe social (A ou D) ou emoção (B), quando na verdade o texto usa esses termos para classificar o registro linguístico. A metáfora dos dias não é literal: não é sobre origem, nem sobre sentimentos, nem sobre segredos compartilhados. É uma estratégia retórica para contrastar formal e informal. Quem cai na pegadinha ignora que o comando pergunta a que a associação remete, não o que ela 'quer dizer' em sentido estrito.
O que estudar se você errou
Relia o diálogo focando nas perguntas e respostas: o primeiro personagem quer saber como 'famigerado' soa na linguagem do dia a dia ('em dia de semana'), e o segundo explica que é 'importante'. A metáfora dos dias serve para opor dois registros: o cotidiano (semana) e o solene (domingo/santo). Se você ainda duvida, pergunte: o que mudaria no texto se 'dia de semana' fosse substituído por 'linguagem comum' ou 'fala do povo'? A ideia central se mantém: é sobre coloquialidade.
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