ENEM 2017 · Linguagens · Literatura · movimentos literários
Questão 13 do ENEM 2017
Resposta: letra B. O poema 'O farrista', de Murilo Mendes, aborda de forma irônica e descontraída eventos históricos iniciais do Brasil, como o descobrimento e a colonização, usando um anjo como personagem central que 'viaja' e 'perde a memória'.
**O farrista**
Quando o almirante Cabral
Pôs as patas no Brasil
O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris.
Quando ele voltou de viagem
O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:
“Não faz mal, isto é boa gente,
Vou arejar outra vez.”
O anjo transpôs a barra,
Diz adeus a Pernambuco,
Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim
Mas deu um vento no anjo,
Ele perdeu a memória.
E não voltou nunca mais.
MENDES, M. **História do Brasil**. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992
A Obra de Murilo Mendes situa-se na fase inicial do Modernismo, cujas propostas estéticas transparecem, no poema, por um eu lírico que
- AConfigura um ideal de nacionalidade pela integração regional.
- BRemonta ao colonialismo assente sob um viés iconoclasta.Resposta correta
- CRepercute as manifestações do sincretismo religioso.
- DDescreve a gênese da formação do povo brasileiro.
- EPromove inovações no repertório linguístico.
Como resolver a questão 13 passo a passo?
O conceito que resolve
O Modernismo brasileiro, especialmente em sua fase inicial (década de 1920), buscava romper com os padrões acadêmicos e românticos da literatura anterior. Murilo Mendes, embora mais associado ao Modernismo tardio ou à segunda fase, já aqui adota elementos típicos do movimento: linguagem coloquial ('pôs as patas', 'vuco-vuco'), ironia, e uma visão crítica da história nacional. O poema não é um registro histórico sério, mas uma reinvenção cômica e subversiva dos fatos, o que caracteriza um viés iconoclasta — ou seja, uma postura de quebra de convenções e questionamento dos mitos estabelecidos sobre a formação do país.
Como chegar na resposta
- 1. Identificar o tom e a linguagem: O poema usa expressões coloquiais ('pôs as patas', 'arejar', 'vuco-vuco') e um humor irreverente. Isso já indica uma ruptura com a linguagem formal e o tom épico ou nacionalista tradicional. O Modernismo valorizava a oralidade e a informalidade.
- 2. Analisar o tratamento dos fatos históricos: O poema aborda o descobrimento, a chegada dos holandeses e a formação do Brasil, mas de forma distorcida e caricata (ex.: o anjo 'perde a memória'). Não é uma narrativa sério-histórica, mas uma paródia ou crítica aos mitos fundadores do país.
- 3. Observar o eu lírico e sua postura: O narrador não assume um tom patriótico ou integrador (como em obras românticas), tampouco descreve a formação cultural ou religiosa do povo. Em vez disso, ele ridiculariza a ocupação do território e a sucessão de povos, o que remete a uma postura de questionamento ou desconstrução dos símbolos nacionais.
- 4. Excluir alternativas que exigem elementos ausentes no texto: Não há referência a sincretismo religioso (C), integração regional (A), gênese do povo brasileiro em termos étnicos (D) ou inovações linguísticas como foco principal (E). A linguagem é inovadora, mas não é o tema central do comando.
- 5. Encontrar a chave no comando: O comando pergunta pelo 'eu lírico' que transparece 'propostas estéticas' do Modernismo. A postura de questionamento dos mitos históricos e a quebra de convenções (iconoclastia) são marcas modernistas, e o poema as usa para tratar do colonialismo, não da formação cultural ou linguística.
Por que cada alternativa
- AA) Erro: Confundir crítica com proposta de integração. A alternativa sugere que o poema configura um 'ideal de nacionalidade pela integração regional', mas o texto não propõe unidade ou celebração. Pelo contrário: o anjo 'perde a memória' e não volta, simbolizando o esquecimento ou a descontinuidade, não a integração.
- BB) Correta: Viés iconoclasta sobre o colonialismo. O poema ridiculariza os eventos históricos (o anjo 'passeando' enquanto o país é ocupado, a memória perdida) e usa uma linguagem despojada para tratar de temas sérios. Isso é típico do Modernismo: quebrar mitos e convenções.
- CC) Erro: Projeção de sincretismo religioso ausente. Não há referência a misturas de crenças (como catolicismo e religiões africanas) no poema. O texto brinca com a história política e a ocupação territorial, não com rituais ou sincretismo. Essa alternativa pressupõe um tema que não está presente.
- DD) Erro: Gênese do povo brasileiro não é o foco. A alternativa sugere que o poema descreve a formação étnica ou cultural do povo, mas o texto trata da chegada de europeus e da 'perda de memória' do anjo, não de miscigenação, culturas indígenas ou africanas. O Modernismo pode abordar isso, mas não é o caso aqui.
- EE) Erro: Inovação linguística não é o tema central. Embora o poema use linguagem coloquial e expressões criativas ('vuco-vuco', 'pôs as patas'), o comando pergunta pelas 'propostas estéticas' do Modernismo no tratamento do colonialismo. A inovação linguística é um meio, não o fim descrito no comando. Além disso, outras alternativas explicam melhor o propósito do texto.
Onde essa questão derruba a maioria
A alternativa E pode atrair porque o poema realmente inova linguisticamente, mas o comando não pergunta sobre isso. Ele pergunta pelo 'eu lírico' que transparece as propostas estéticas do Modernismo no contexto do colonialismo.
O que estudar se você errou
Reler o poema com foco no tom e no que é criticado: o anjo (símbolo de proteção) 'perde a memória' e não volta, enquanto o país é ocupado por portugueses e holandeses.
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