ENEM 2015 · Ciências Humanas · Filosofia · teoria do conhecimento
Questão 34 do ENEM 2015
Resposta: letra C. Nietzsche destaca o início da filosofia grega com uma ideia inicial: a água como origem de todas as coisas. Ele aponta três motivos para levar essa ideia a sério: (1) ela fala sobre a origem das coisas, (2) o faz sem recorrer a imagens ou mitos, e (3) nela já está implícita a ideia de que 'tudo é um', ou seja, uma busca racional pela unidade fundamental da realidade.
A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: _Tudo é um_.
NIETZSCHE, F. Crítica moderna. In: **Os pré-socráticos**. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos?
- AO impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.
- BO desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.
- CA necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes.Resposta correta
- DA ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.
- EA tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.
Como resolver a questão 34 passo a passo?
O conceito que resolve
A filosofia grega, segundo Nietzsche, surge quando se propõe a explicar a origem das coisas sem recorrer a narrativas míticas ou fabulações, mas sim de maneira racional e abstrata. O exemplo dado — a água como origem — não é uma crença arbitrária, mas uma tentativa de encontrar uma causa primeira ou princípio unificador para a existência, ainda que em forma embrionária ('em estado de crisálida'). O texto enfatiza que a filosofia nasce quando se busca responder 'o que é?' ou 'de onde vem?' de forma sistemática, não poética.
Como chegar na resposta
- Identificar o que Nietzsche considera inovador na filosofia grega: o texto diz que ela 'começa' com uma proposição sobre a origem das coisas (a água), mas o diferencial não é a proposição em si, e sim como ela é apresentada: sem imagens ou fabulações. Isso exclui alternativas que falem de metáforas ou elementos sensíveis não processados racionalmente.
- Analisar os três motivos dados para levar a proposição a sério: (a) ela fala sobre a origem; (b) ela o faz sem imagem/fabulação; (c) nela está contida a ideia de que 'tudo é um'. O ponto-chave é a racionalidade (ausência de mitos) e a busca por uma causa primeira unificadora. Isso elimina alternativas que mencionem justificativas empíricas ou diferenças entre coisas.
- Decifrar a expressão 'em estado de crisálida': Nietzsche usa essa imagem para mostrar que a filosofia ainda está em formação, mas já contém o germe da ideia de unidade ('tudo é um'). Isso reforça que o foco é a busca racional por princípios fundamentais, não a descrição de particularidades ou a acumulação de fatos.
- Contrastar com alternativas que mencionam sensibilidade, empirismo ou diferenças: O texto rejeita explicações baseadas em sensações ou metáforas (B e E) e também descarta a ideia de que a filosofia grega comece com a descrição de diferenças (D). A alternativa correta deve alinhar-se à busca por uma causa primeira e ao método racional não-mítico.
- Verificar se a alternativa correta abrange os três motivos de Nietzsche: A alternativa certa deve incluir (1) origem das coisas, (2) racionalidade (sem fabulação), e (3) unidade fundamental. Isso é explícito na alternativa que fala em 'causa primeira' e 'busca racional'.
- pegadinha: A expressão 'tudo é um' pode levar a uma leitura superficial de que a filosofia grega busca unificar por meio de semelhanças ou identidades, mas o texto não fala de 'diferenças' (D) nem de 'justificativas empíricas' (E). A armadilha é confundir 'unidade' com 'descrição de particularidades' ou 'empirismo'.
Por que cada alternativa
- AErro: Confunde justificativa racional com transformação dos sensíveis em verdades. Nietzsche não fala em 'transformar elementos sensíveis' (como dados brutos dos sentidos), mas em superar as imagens e fabulações para propor uma origem racional. A alternativa sugere um processo de 'elevar' o sensível ao racional, mas o texto grego parte de uma ideia abstrata (água como origem) e não de dados sensíveis. Além disso, 'justificativas' soa como um processo posterior, não o nascimento da filosofia.
- BErro: Associa filosofia grega ao uso de metáforas. O texto diz explicitamente que a filosofia grega não usa imagens ou fabulações para explicar a origem. A alternativa B inverte o sentido: Nietzsche critica justamente as explicações baseadas em metáforas (como mitos), não as celebra. Quem escolhe B lê 'sem imagem e fabulação' como 'com imagem' por distração.
- CResolução: Captura os três pontos-chave do texto. A alternativa menciona (1) 'buscar' (a origem é o tema central), (2) 'forma racional' (ausência de imagens/fabulações), e (3) 'causa primeira' (a água como origem é um exemplo de princípio unificador). Além disso, 'causa primeira' conecta-se à ideia de 'tudo é um' em estado embrionário. É a única que não distorce o sentido do texto.
- DErro: Inverte o foco da filosofia grega. Nietzsche destaca a busca pela unidade ('tudo é um'), não pelas diferenças. A alternativa D sugere que a filosofia comece com a descrição de particularidades, mas o texto mostra que ela parte de uma hipótese geral (água como origem). Quem escolhe D ignora o terceiro motivo ('tudo é um') e se fixa na palavra 'coisas' sem perceber que o foco é a origem comum.
- EErro: Confunde filosofia com empirismo ou justificação de fatos. Nietzsche critica explicações baseadas em 'elementos sensíveis' ou 'empíricos' (como mitos ou observações diretas). A filosofia grega, para ele, supera isso ao propor uma origem racional. A alternativa E descreve um método posterior ou científico, não o nascimento da filosofia como busca por princípios primeiros. Quem escolhe E ignora que o texto valoriza a abstração, não o dado empírico.
Onde essa questão derruba a maioria
A expressão 'tudo é um' pode induzir o estudante a pensar que a filosofia grega busca demonstrar que todas as coisas são iguais ou idênticas, levando a escolher D (diferenças) ou até mesmo E (justificação empírica). No entanto, o texto não fala de igualdade ou descrição de particularidades, mas de propor uma origem única e racional para a diversidade aparente. A pegadinha está em ler 'tudo é um' como uma afirmação sobre semelhanças, quando na verdade é uma hipótese sobre a unidade do princípio fundamental por trás da multiplicidade.
O que estudar se você errou
Relia o segundo parágrafo do texto, especialmente os três motivos dados por Nietzsche. Substitua mentalmente cada alternativa pelos termos do texto: se a alternativa não mencionar 'origem das coisas', 'sem imagem/fabulação' e 'unidade' (ou 'tudo é um'), ela está errada. Por exemplo, a alternativa C é a única que abrange os três pontos. Se você marcou outra, pergunte: 'O que no texto justifica essa escolha?' — e procure a resposta nos motivos apresentados.
Mais questões de Filosofia
- ENEM 2025 · questão 48No contexto do século XVIII, o autor propõe uma reflexão radical acerca da arte da eloquência, restringindo-a…
- ENEM 2025 · questão 50De acordo com o texto, ainda que estejam em desconformidade com o ordenamento jurídico, são exemplos de ação…
- ENEM 2025 · questão 53A percepção sobre a dança e a cultura corporal apresenta aspectos relacionados, respectivamente, a
- ENEM 2025 · questão 60O texto defende uma motivação capitalista para o campo dos negócios, na qual o lucro se mostra associado à
- ENEM 2025 · questão 61No excerto encontra-se a base da teoria clássica das três formas de governo representadas pela
- ENEM 2025 · questão 62De acordo com o autor, qual é a função da utopia no contexto das transformações sociais?