ENEM 2012 · Linguagens
Questão 128 do ENEM 2012
Resposta: letra A. O texto é uma entrevista com Marcos Bagno, linguista que defende o uso de variantes coloquiais do português brasileiro, como 'tem feijoada' (com 'ter' no lugar de 'haver'). Ele argumenta que essas formas são históricas e compartilhadas por falantes brasileiros, africanos e até mesmo registros medievais portugueses. Apesar disso, o texto inteiro segue a norma padrão, o que gera uma aparente contradição entre a defesa das variantes coloquiais e a adoção formal da norma culta no próprio discurso.
**Entrevista com Marcos Bagno**
Pode parecer inacreditável, mas muitas das prescrições da pedagogia tradicional da língua até hoje se baseiam nos usos que os escritores portugueses do século XIX faziam da língua. Se tantas pessoas condenam, por exemplo, o uso do verbo “ter” no lugar de “haver”, como em “hoje tem feijoada”, é simplesmente porque os portugueses, em dado momento da história de sua língua, deixaram de fazer esse uso existencial do verbo “ter”.
No entanto, temos registros escritos da época medieval em que aparecem centenas desses usos. Se nós, brasileiros, assim como os falantes africanos de português, usamos até hoje o verbo “ter” como existencial é porque recebemos esses usos de nossos ex-colonizadores. Não faz sentido imaginar que brasileiros, angolanos e moçambicanos decidiram se juntar para “errar” na mesma coisa. E assim acontece com muitas outras coisas: regências verbais, colocação pronominal, concordâncias nominais e verbais etc. Temos uma língua própria, mas ainda somos obrigados a seguir uma gramática normativa de outra língua diferente. Às vésperas de comemorarmos nosso bicentenário de independência, não faz sentido continuar rejeitando o que é nosso para só aceitar o que vem de fora.
Não faz sentido rejeitar a língua de 190 milhões de brasileiros para só considerar certo o que é usado por menos de dez milhões de portugueses. Só na cidade de São Paulo temos mais falantes de português que em toda a Europa!
**Informativo Parábola Editorial**, s/d.
Na entrevista, o autor defende o uso de formas linguísticas coloquiais e faz uso da norma padrão em toda a extensão do texto. Isso pode ser explicado pelo fato de que ele
- AAdapta o nível de linguagem à situação comunicativa, uma vez que o gênero entrevista requer o uso da norma padrão.Resposta correta
- BApresenta argumentos carentes de comprovação científica e, por isso, defende um ponto de vista difícil de ser verificado na materialidade do texto.
- CPropõe que o padrão normativo deve ser usado por falantes escolarizados como ele, enquanto a norma coloquial deve ser usada por falantes não escolarizados.
- DAcredita que a língua genuinamente brasileira está em construção, o que o obriga a incorporar em seu cotidiano a gramática normativa do português europeu.
- EDefende que a quantidade de falantes do português brasileiro ainda é insuficiente para acabar com a hegemonia do antigo colonizador.
Como resolver a questão 128 passo a passo?
O conceito que resolve
O comando pergunta por que o autor defende formas coloquiais no conteúdo (como o uso de 'ter' no lugar de 'haver') mas usa a norma padrão na forma (no texto da entrevista). Isso envolve dois conceitos-chave: variação linguística (diferenças aceitáveis em uma língua) e adequação situacional (adaptar o registro ao contexto). O desafio é entender por que o autor não mistura os registros dentro do mesmo texto, mas sim os separa: um para argumentar (coloquial) e outro para se comunicar (padrão).
Como chegar na resposta
- Identificar a tensão no texto: Bagno defende usos coloquiais (ex.: 'tem feijoada'), mas escreve todo o texto em norma padrão. Isso é uma estratégia deliberada ou um descuido? Não é descuido: ele usa a norma padrão para ser compreendido em um veículo formal (entrevista em um *informativo*), mas argumenta contra a imposição dessa norma como única válida no cotidiano.
- Analisar o gênero 'entrevista': Entrevistas em veículos sérios (jornais, revistas) geralmente exigem norma padrão, mesmo que o entrevistado defenda posições contrárias a ela. O autor adapta o registro ao gênero, mas não abandona seu argumento central: a norma coloquial é legítima e histórica.
- Descartar alternativas que distorcem o argumento: Algumas alternativas sugerem que Bagno é contraditório, defende exclusividades ou nega a construção da língua brasileira. Nenhuma delas explica por que ele separa os registros (padrão no texto, coloquial nos exemplos) sem confundir um com o outro.
- Enxergar a estratégia retórica: Ao usar norma padrão no texto, ele ganha credibilidade no meio acadêmico/jornalístico, mas ao citar exemplos coloquiais, desmonta a ideia de que só a norma padrão é correta. Isso é adequação situacional: escolher o registro certo para cada função.
- Verificar se o comando é sobre coerência ou estratégia: O comando não pergunta se o texto é coerente (seria sim, mas não é o foco), mas por que ele faz isso. A resposta está em entender que a norma padrão é usada como ferramenta de comunicação, não como endosso ao normativismo que critica.
Por que cada alternativa
- ACorreta. O autor adapta o nível de linguagem à situação comunicativa: usa norma padrão porque está em um texto formal (entrevista em um informativo), mas defende o uso coloquial como argumento, não como regra para aquele contexto. Isso explica a separação entre forma (padrão) e conteúdo (defesa do coloquial). O erro de quem marca outra alternativa é não perceber que a adequação situacional não é contradição, mas estratégia.
- BErro: falta de comprovação científica. Essa alternativa sugere que os argumentos de Bagno são 'difíceis de verificar', mas o texto traz evidências históricas (registros medievais, uso em Angola/Moçambique) e dados quantitativos (190 milhões de falantes no Brasil vs. 10 milhões em Portugal). O erro aqui é ignorar as provas no texto e inventar que seus argumentos são 'carentes'.
- CErro: escolarização como critério de uso. Essa alternativa cria uma divisão artificial entre 'escolarizados' (que usariam norma padrão) e 'não escolarizados' (que usariam coloquial). Bagno não faz essa separação: ele próprio é escolarizado, mas defende o coloquial como parte legítima da língua, não como privilégio de classes. O erro é confundir defesa da variação com preconceito de classe.
- DErro: língua brasileira 'em construção' vs. gramática europeia. Bagno não acredita que precise incorporar a gramática europeia. Ele argumenta que o português brasileiro já existe e é histórico; a 'obrigação' de seguir normas europeias é o problema, não a solução. O erro aqui é inverter sua posição: ele não aceita a gramática europeia como referência, e sim questiona por que ela ainda manda.
- EErro: quantidade de falantes insuficiente. Bagno usa o argumento contrário: ele destaca que há mais falantes no Brasil que em toda a Europa para provar que a norma brasileira deve ser valorizada, não que ela é 'insuficiente'. O erro é ler o texto como se ele defendesse minorias linguísticas, quando na verdade ele celebra a maioria.
Onde essa questão derruba a maioria
A questão joga com a aparente contradição entre 'defender o coloquial' e 'escrever em padrão'. A pegadinha está em fazer o estudante pensar que Bagno é incoerente, quando na verdade ele separa as funções: usa norma padrão para se comunicar no veículo formal, mas argumenta contra a imposição dessa norma como única válida. Quem cai na pegadinha acha que a resposta está na 'contradição', mas a resposta está na estratégia retórica por trás dela.
O que estudar se você errou
Releia o primeiro parágrafo do texto: Bagno diz que 'não faz sentido rejeitar a língua de 190 milhões de brasileiros'. Isso é um argumento central. Agora, observe que o texto todo está em norma padrão — mas isso não invalida seu argumento, e sim mostra que ele sabe usar os registros de forma consciente. A alternativa correta deve explicar por que ele não mistura os registros, e sim os separa por função.
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