ENEM 2012 · Linguagens · Literatura
Questão 102 do ENEM 2012
Resposta: letra B. Dois trechos do diário de Joseph Conrad mostram sua relação com Stephen Crane: em 1912, ele diz que Crane é esquecido; em 1919, Conrad é reconhecido como grande escritor, enquanto Crane é relembrado por um jornal. A metáfora 'Muito peixe foi embrulhado pelas folhas de jornal' conecta esses dois momentos, sugerindo uma mudança de situação ao longo do tempo, mas não de causa/consequência direta ou oposição.
**Labaredas nas trevas**
**Fragmentos do diário secreto de**
**Teodor Konrad Nalecz Korzeniowski**
20 DE JULHO \[1912\]
Peter Sumerville pede-me que escreva um artigo sobre Crane. Envio-lhe uma carta: “Acredite-me, prezado senhor, nenhum jornal ou revista se interessaria por qualquer coisa que eu, ou outra pessoa, escrevesse sobre Stephen Crane. Ririam da sugestão. \[…\] Dificilmente encontro alguém, agora, que saiba quem é Stephen Crane ou lembre-se de algo dele. Para os jovens escritores que estão surgindo ele simplesmente não existe.”
20 DE DEZEMBRO \[1919\]
Muito peixe foi embrulhado pelas folhas de jornal. Sou reconhecido como o maior escritor vivo da língua inglesa. Já se passaram dezenove anos desde que Crane morreu, mas eu não o esqueço. E parece que outros também não. _The London Mercury_ resolveu celebrar os vinte e cinco anos de publicação de um livro que, segundo eles, foi “um fenômeno hoje esquecido” e me pediram um artigo.
FONSECA, R. **Romance negro e outras histórias**. São Paulo: Companhia das Letras, 1992 (fragmento).
Na construção de textos literários, os autores recorrem com frequência a expressões metafóricas. Ao empregar o enunciado metafórico “Muito peixe foi embrulhado pelas folhas de jornal”, pretendeu-se estabelecer, entre os dois fragmentos do texto em questão, uma relação semântica de
- ACausalidade, segundo a qual se relacionam as partes de um texto, em que uma contém a causa e a outra, a consequência.
- BTemporalidade, segundo a qual se articulam as partes de um texto, situando no tempo o que é relatado nas partes em questão.Resposta correta
- CCondicionalidade, segundo a qual se combinam duas partes de um texto, em que uma resulta ou depende de circunstâncias apresentadas na outra.
- DAdversidade, segundo a qual se articulam duas partes de um texto em que uma apresenta uma orientação argumentativa distinta e oposta à outra.
- EFinalidade, segundo a qual se articulam duas partes de um texto em que uma apresenta o meio, por exemplo, para uma ação e a outra, o desfecho da mesma.
Como resolver a questão 102 passo a passo?
O conceito que resolve
A metáfora 'peixe embrulhado em jornal' não estabelece relação de causa (uma parte não causa a outra), nem de oposição (não há contradição entre os trechos), nem de condição (um trecho não depende do outro como condição). Também não há finalidade (um trecho não é meio para o outro). A relação é temporal: os dois trechos marcam momentos distintos (1912 e 1919) e a metáfora sugere uma evolução no tempo — o 'peixe' (Crane) passa de esquecido a relembrado, enquanto Conrad passa de desconhecido a reconhecido. A metáfora não cria uma relação lógica entre ações, mas uma imagem que condensa a passagem do tempo e a mudança de percepção.
Como chegar na resposta
- Identificar os dois trechos e suas datas: O primeiro (1912) mostra Crane como esquecido; o segundo (1919) mostra Crane sendo relembrado. As datas são cruciais: há um intervalo de 7 anos entre eles.
- Analisar a metáfora: 'Peixe embrulhado em jornal' não é uma relação literal. Em contextos literários, 'peixe' pode simbolizar algo (aqui, a obra de Crane) e 'jornal' pode representar a mídia ou o tempo. A imagem sugere que algo (Crane) foi 'enrolado' ou preservado pelo tempo/mídia, mas não que uma parte cause a outra.
- Eliminar relações lógicas: Causalidade (A) exigiria que um trecho explique o outro como causa/consequência — não é o caso. Adversidade (D) exigiria oposição — os trechos não se contradizem. Condicionalidade (C) exigiria que um dependa do outro como condição — não há dependência lógica. Finalidade (E) exigiria meio e desfecho — não há ação proposital.
- Focar na temporalidade: A metáfora conecta os dois momentos no tempo. O 'peixe' (Crane) é 'enrolado' pelo tempo (jornal = veículo de memória), mostrando uma mudança ao longo dos anos. A relação é cronológica, não lógica.
- Confirmar com o contexto: Conrad escreve em 1919 sobre Crane, mas também menciona sua própria trajetória. A metáfora não explica *por que* Crane foi relembrado, mas *que* houve uma mudança temporal na percepção dele (e do próprio Conrad).
Por que cada alternativa
- AErro: Confunde relação metafórica com causalidade. A alternativa sugere que um trecho causa o outro, mas a metáfora não estabelece uma relação de causa e efeito. O primeiro trecho não 'causa' o segundo; ambos são marcas de um mesmo processo temporal (o esquecimento e o resgate de Crane). Quem escolhe essa alternativa lê os trechos como se um fosse explicação do outro, ignorando que a metáfora é uma imagem que condensa o tempo, não uma relação lógica.
- BCorreta: A metáfora estabelece relação temporal. Os dois trechos estão separados por 7 anos, e a imagem do 'peixe embrulhado' sugere que algo (a obra de Crane) foi 'preservado' ou 'revelado' pelo tempo (o jornal como símbolo de memória histórica). A relação não é de causa, oposição ou condição, mas de evolução no tempo. A metáfora funciona como um elo cronológico entre os dois momentos, mostrando como a percepção sobre Crane mudou ao longo dos anos.
- CErro: Confunde condição com temporalidade. A alternativa sugere que um trecho depende do outro como condição, mas a metáfora não estabelece que 1919 *depende* de 1912 para existir. Os dois são pontos em uma linha do tempo, não condições uma da outra. Quem escolhe essa alternativa pode pensar que o reconhecimento de Crane em 1919 só existe porque ele era esquecido em 1912, mas a metáfora não cria essa dependência lógica.
- Dem 1912, ele é esquecido *pelos jovens*; em 1919, é relembrado *por um jornal*. Não há argumentação oposta. Quem escolhe essa alternativa pode ler os trechos como se o primeiro dissesse 'Crane é ruim' e o segundo 'Crane é bom', mas o texto não faz isso: trata-se de uma mudança de percepção, não de conflito.
- EErro: Confunde metáfora com relação de meio e fim. A alternativa sugere que um trecho é meio para o outro, mas a metáfora não estabelece uma ação proposital. Não há 'fazer algo para alcançar algo': o 'peixe embrulhado' é uma imagem poética da passagem do tempo, não um processo causal com início, meio e fim. Quem escolhe essa alternativa pode pensar que o esquecimento de Crane (1912) é um passo para seu reconhecimento (1919), mas a metáfora não funciona assim.
Onde essa questão derruba a maioria
A questão pega o estudante em dois pontos: (1) a metáfora não é literal: muitos podem pensar que 'peixe' e 'jornal' se referem a algo concreto (ex.: Crane sendo 'esquecido' como peixe podre), mas a imagem é abstrata e temporal; (2) as datas são distantes, mas não causais: os 7 anos entre os trechos são importantes, mas não indicam causa, condição ou finalidade — apenas passagem de tempo. Quem não lê com atenção as datas ou força uma relação lógica cai em armadilhas como A, C ou E.
O que estudar se você errou
Relia os dois trechos com foco nas datas e no que cada um diz sobre Crane: em 1912, ele é esquecido; em 1919, é relembrado. Pergunte-se: a metáfora conecta esses momentos como causa, condição, oposição ou meio? Não. Ela os une como marcas de um mesmo processo temporal. Se você pensou em outra relação, pare e questione: o que a metáfora realmente faz? Ela não explica *por que*, mas *que* algo mudou com o tempo.
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