ENEM 2018 · Linguagens · Literatura · literatura brasileira
Questão 35 do ENEM 2018
Resposta: letra A. O poema usa ironia e referências ao detetive Sherlock Holmes para criticar generalizações sobre desejos femininos, mostrando como o eu lírico (que se apresenta como 'euzinho') assume um discurso que reduz a complexidade da mulher a um estereótipo simplista ('o que ela quer sou euzinho').
o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser
FREITAS, A. **Um útero é do tamanho de um punho**. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
No processo de elaboração do poema, a autora confere ao eu lírico uma identidade que aqui representa a
- AHipocrisia do discurso alicerçado sobre o senso comum.Resposta correta
- BMudança de paradigmas de imagem atribuídos à mulher.
- CTentativa de estabelecer preceitos da psicologia feminina.
- DImportância da correlação entre ações e efeitos causados.
- EValorização da sensibilidade como característica de gênero.
Como resolver a questão 35 passo a passo?
O conceito que resolve
O comando pergunta qual identidade o eu lírico assume no poema, ou seja, qual é a postura ou característica atribuída a ele pela autora durante a construção do texto. Não se trata de analisar a mulher, mas sim o papel que o 'eu lírico' desempenha ao falar *sobre* ela. A chave está em perceber se o eu lírico age com sinceridade, preconceito, generalização, sensibilidade ou outra atitude. O poema joga com a hipocrisia de um discurso que *parece* conhecer a mulher, mas na verdade se baseia em clichês ('caro Watson, elementar').
Como chegar na resposta
- Identificar o tom do poema: O texto usa linguagem coloquial, ironia ('caro Watson') e uma estrutura que imita deduções de Sherlock Holmes, mas o resultado é absurdo ('o que ela quer sou euzinho'). Isso indica que o eu lírico está brincando com a ideia de *falsas certezas*.
- Analisar o foco do discurso: O eu lírico não fala da mulher em si, mas sim de como *ele* (ou a sociedade) interpreta seus desejos. A repetição de 'ela escolheu vermelho' e 'eu já posso afirmar que conheço o seu desejo' mostra uma atitude de *suposição infundada*.
- Conectar com o título e contexto: O livro é 'Um útero é do tamanho de um punho', que aborda temas feministas. O poema, então, critica a tendência de reduzir a experiência feminina a estereótipos ('vestido vermelho' = desejo sexual). O eu lírico aqui é *hipócrita* porque finge saber, mas na verdade reproduz um clichê.
- Descartar outras possibilidades: Não é sobre *mudança de paradigma* (B), nem sobre *psicologia feminina* (C), nem sobre *causa e efeito* (D), nem sobre *sensibilidade* (E). O problema é a *falsa segurança* do discurso, não a intenção de valorizar ou explicar.
- Enxergar a ironia final: A pergunta retórica 'o que mais podia ser?' reforça que o eu lírico *fingiu* deduzir algo óbvio, mas na verdade só repetiu um preconceito. Isso é *hipocrisia*: agir como se soubesse, quando na verdade se baseia em senso comum.
Por que cada alternativa
- AHipocrisia do discurso alicerçado sobre o senso comum: Correta. O eu lírico finge ter um conhecimento 'elementar' sobre os desejos da mulher, mas sua 'dedução' ('sou euzinho') é um clichê. A ironia do poema está justamente em expor essa hipocrisia: ele *age como se* soubesse, mas seu raciocínio parte de estereótipos ('vestido vermelho' = desejo sexual). O termo 'senso comum' aparece no poema ('com base nesses fatos'), e a hipocrisia está em apresentar isso como uma verdade absoluta.
- BMudança de paradigmas de imagem atribuídos à mulher: Erro de *leitura superficial*. A questão não trata de transformação de imagens femininas, mas de como um discurso *fingido* de conhecimento reproduz estereótipos. O poema não propõe uma nova visão, mas desmonta uma falsa certeza. Quem escolhe essa alternativa ignora a crítica à generalização e lê o texto como um manifesto feminista direto, sem perceber a ironia.
- CTentativa de estabelecer preceitos da psicologia feminina: Erro de *confundir crítica com teoria*. O poema não busca criar regras psicológicas, mas ridicularizar a ideia de que alguém possa 'decifrar' desejos femininos com base em detalhes superficiais. A menção a 'psicologia feminina' é um equívoco: o texto não é um manual, e sim uma sátira. Quem marca essa alternativa pode estar pensando em outros poemas do livro, mas não no funcionamento específico desse.
- DImportância da correlação entre ações e efeitos causados: Erro de *foco no conteúdo ao invés da crítica*. O poema não discute causalidade (ex.: 'ela escolheu vermelho, então quer sexo'), mas sim a *falsa lógica* por trás dessa correlação. A alternativa ignora que o eu lírico está *errando* ao fazer essa associação, e não elogiando um método de análise. Quem escolhe essa opção pode estar focado nas escolhas da mulher ('vestido', 'cores'), mas perde a ironia sobre a conclusão absurda.
- EValorização da sensibilidade como característica de gênero: Erro de *inversão do alvo*. O poema não valoriza a sensibilidade feminina; ao contrário, ridiculariza a ideia de que alguém possa *adivinhar* desejos com base em sensibilidade (ou falta dela). O eu lírico age com *insensibilidade* ao reduzir a mulher a um estereótipo. Quem marca essa alternativa pode estar lendo o poema como uma celebração da intuição feminina, mas o texto faz o oposto: mostra como essa intuição pode ser manipulada ou mal interpretada.
Onde essa questão derruba a maioria
A questão pega o candidato desatento em dois pontos: (1) o comando pergunta sobre a identidade do eu lírico, não sobre a mulher; e (2) a ironia do poema está em expor a hipocrisia, não em propor uma tese. Muitas alternativas falam da mulher (B, E), mas o foco é como o eu lírico *finge* saber. Além disso, a menção a 'Sherlock Holmes' e 'caro Watson' é uma pista forte: o poema imita um detetive que *acerta* por sorte, não por lógica. Quem ignora isso pode cair em armadilhas como 'psicologia feminina' ou 'mudança de paradigma'.
O que estudar se você errou
Relia os dois últimos versos: 'o que ela quer sou euzinho / só pode ser euzinho'. A repetição de 'euzinho' não é inocente: é uma autodenominação ridícula que expõe a vaidade do eu lírico. Pergunte-se: o poema está *ensinando* algo sobre mulheres (B, C, E) ou *ridicularizando* quem acha que sabe? A resposta está na estrutura: o eu lírico age como um 'detetive', mas sua 'dedução' é absurda. Isso é hipocrisia disfarçada de certeza.
Mais questões de Literatura
- ENEM 2025 · questão 11Nesse trecho, ao se referir à sua filha, o pai de Inocência reproduz os ideais românticos, presentes na
- ENEM 2025 · questão 17A narradora, ao resgatar memórias da história de vida da avó, faz uso recorrente da locução “antes de”. Esse…
- ENEM 2025 · questão 19Nesse texto, as atletas brasileiras defendem o(a)
- ENEM 2025 · questão 25Nesse texto, a estratégia empregada para criticar a constante exposição a palavras, frases e expressões autom…
- ENEM 2025 · questão 28Nesse fragmento do poema, o sentimento de luto adquire contornos expressivos e é intensificado pela
- ENEM 2025 · questão 29Nesse fragmento, o narrador enumera o resultado do trabalho com a terra, o qual, no contexto em que aparece,