ENEM 2014 · Linguagens · Literatura
Questão 132 do ENEM 2014
Resposta: letra C. Prima Constança usa ditados populares para dar sentido e direção às suas ações, especialmente em momentos de incerteza ou decisão. O texto mostra como ela os emprega para interpretar situações e justificar escolhas, vinculando-os até mesmo à vontade de Deus. A questão pede que se identifique como esse uso se relaciona à definição de ditado popular no Texto I (saber baseado em experiência popular, com ensinamento ou norma de conduta).
**TEXTO I**
Ditado popular é uma frase sentenciosa, concisa, de verdade comprovada, baseada na secular experiência do povo, exposta de forma poética, contendo uma norma de conduta ou qualquer outro ensinamento.
WEITZEL, A. H. **Folclore literário e linguístico**. Juiz de Fora: Esdeva, 1984 (fragmento).
**TEXTO II**
Rindo brincalhona, dando-lhe tapinhas nas costas, prima Constança disse isto, dorme no assunto, ouça o travesseiro, não tem melhor conselheiro.
Enquanto prima Biela dormia no assunto, toda a casa se alvoroçava.
\[Prima Constança\] ia rezar, pedir a Deus para iluminar prima Biela. Mas ia também tomar suas providências. Casamento e mortalha, no céu se talha. Deus escreve direito por linhas tortas. O que for soará. Dizia os ditados todos, procurando interpretar os desígnios de Deus, transformar os seus desejos nos desígnios de Deus. Se achava um instrumento de Deus.
DOURADO, A. **Uma vida em segredo**. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990 (fragmento).
O uso que prima Constança faz dos ditados populares, no Texto II, constitui uma maneira de utilizar o tipo de saber definido no Texto I, porque
- ACita-os pela força do hábito.
- BAceita-os como verdade absoluta.
- CAciona-os para justificar suas ações.Resposta correta
- DToma-os para solucionar um problema.
- EConsidera-os como uma orientação divina.
Como resolver a questão 132 passo a passo?
O conceito que resolve
O Texto I define ditado popular como uma frase concisa, de origem na experiência coletiva, que ensina uma norma de conduta ou um ensinamento prático. Não é apenas uma frase bonita, mas um saber popular que orienta ações ou interpretações. Já o Texto II mostra prima Constança usando ditados como *‘Casamento e mortalha, no céu se talha’* e *‘Deus escreve direito por linhas tortas’* para dar sentido às suas decisões e até para justificar suas ações como se fossem desígnios divinos. A chave está em entender que ela não os usa ao acaso, mas como ferramenta de interpretação e legitimação de suas escolhas, alinhando-se à função de ensinamento prático do ditado popular.
Como chegar na resposta
- Entender o Texto I: Ditado popular é um saber prático, baseado em experiência coletiva, que ensina ou orienta conduta. Não é mera decoração, mas ferramenta de ação ou reflexão.
- Analisar o Texto II: Prima Constança usa ditados em momentos de decisão e incerteza (ex.: casamento de prima Biela). Ela não os repete sem motivo: os ditados servem para explicar suas ações (*‘procurando interpretar os desígnios de Deus’*) e justificar escolhas (*‘transformar os seus desejos nos desígnios de Deus’*).
- Comparar com o comando: A pergunta pergunta como ela usa os ditados de acordo com a definição do Texto I. Ou seja: qual a função prática que ela dá aos ditados? Não é citar, não é aceitar cegamente, mas usar como base para agir ou interpretar.
- Eliminar alternativas que não condizem com uso prático: Alternativas que falam em ‘força do hábito’ (A), ‘verdade absoluta’ (B) ou ‘orientação divina’ (E) ignoram que ela os usa como instrumento ativo, não como dogma ou mera crença. Já ‘solucionar problema’ (D) é muito genérico: os ditados não resolvem o problema concreto (casamento), mas dão sentido à sua atitude.
- Identificar a função central: A alternativa que melhor captura o uso ativo e justificativo dos ditados é a que diz que ela os aciona para justificar suas ações. Isso alinha com a definição do Texto I: ditados como norma de conduta ou ensinamento prático — aqui, para legitimar suas escolhas.
- Verificar coesão: Em nenhum momento ela usa os ditados como conselho prático imediato (D), nem como verdade inquestionável (B). Ela os reinterpreta para validar suas decisões, o que é um uso prático e estratégico do saber popular.
Por que cada alternativa
- AErro: Confunde uso passivo com ativo. Citar ditados por hábito não os usa como ferramenta de ação ou interpretação. O Texto II mostra prima Constança selecionando e aplicando ditados em contexto específico, não repetindo-os mecanicamente. Quem escolhe essa alternativa lê os ditados como mera tradição, ignorando seu papel funcional no texto.
- BErro: Aceitar como verdade absoluta desconsidera a função prática. O Texto I diz que ditados populares têm ‘verdade comprovada’, mas não que sejam dogmas. Prima Constança os usa como argumento, não como verdades imutáveis. Quem cai nessa alternativa ignora que ela adapta os ditados aos seus interesses (ex.: ‘transformar os seus desejos nos desígnios de Deus’).
- CCorreto: Justifica ações com base em saber popular. O Texto II mostra que ela usa ditados para legitimar suas decisões (‘procurando interpretar os desígnios de Deus’, ‘instrumento de Deus’). Isso condiz com o Texto I: ditados como norma de conduta ou ensinamento prático. Ela não os usa ao acaso, mas para dar fundamento às suas escolhas, o que é a essência do saber popular na definição dada.
- DErro: Generaliza a função dos ditados. ‘Solucionar problema’ é vago e não se aplica ao texto. Os ditados não resolvem o casamento de prima Biela ou a crise da casa; eles servem para interpretar a situação e justificar a atitude de prima Constança (rezar + tomar providências). Quem escolhe essa alternativa ignora que os ditados são usados como ferramenta de sentido, não de solução técnica.
- EErro: Confunde função social com função religiosa. Embora ela vincule os ditados a Deus, o Texto I não os define como orientação divina, mas como saber popular. A pegada religiosa é uma estratégia dela, não uma característica intrínseca dos ditados. Quem escolhe essa alternativa lê o texto como se os ditados fossem revelações, não como herança cultural adaptada a seus objetivos.
Onde essa questão derruba a maioria
A alternativa E é a mais perigosa porque prima Constança de fato fala em Deus e desígnios divinos. No entanto, o Texto I define ditados populares como saber baseado na experiência do povo, não como revelações religiosas. A pegadinha está em confundir a forma como ela usa os ditados (vinculando-os a Deus) com a natureza deles (herança cultural, não dogma). Quem se distrair com a menção a Deus pode achar que a alternativa E é correta, mas ela ignora que o Texto I não fala em orientação divina, e sim em ensinamento prático coletivo.
O que estudar se você errou
Relia o Texto I com atenção: ditado popular é saber prático, não mera crença ou hábito. No Texto II, prima Constança usa os ditados para agir, não para decorar. Pergunte-se: ela os usa para fazer algo (justificar, interpretar, decidir) ou apenas para citar? Se a resposta for ‘fazer algo’, a alternativa C é a correta. Se a resposta for ‘apenas citar’, você caiu em A ou B. E lembre-se: o Texto I não menciona Deus — ele fala em experiência do povo.
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