ENEM 2014 · Linguagens · Literatura · movimentos literários
Questão 109 do ENEM 2014
Resposta: letra B. O texto é um trecho de *Memórias póstumas de Brás Cubas*, onde o narrador, Brás Cubas, reflete sobre seu cunhado Cotrim. Ele descreve Cotrim como um homem de caráter 'ferozmente honrado', mas com defeitos como avareza e dureza no trato com escravos. Brás Cubas usa ironia para relativizar esses traços, justificando ações moralmente questionáveis como consequência de 'relações sociais' e destacando seus 'sentimentos pios' (amor aos filhos, dor pela morte da filha Sara e participação em irmandades).
Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço que era um modelo. Arguíam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude, e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras, tinha inimigos que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com frequência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova de que o Cotrim tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas, o que não se coaduna muito com a reputação da avareza; verdade é que o benefício não caíra no chão: a irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe tirar o retrato a óleo.
ASSIS, M. **Memórias póstumas de Brás Cubas.** Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.
Obra que inaugura o Realismo na literatura brasileira, _Memórias póstumas de Brás Cubas_ condensa numa expressividade que caracterizaria o estilo machadiano: a ironia.
Descrevendo a moral de seu cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas refina a percepção irônica ao
- AAcusar o cunhado de ser avarento para confessar-se injustiçado na divisão da herança paterna.
- BAtribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade com que Cotrim prendia e torturava os escravos.Resposta correta
- CConsiderar os “sentimentos pios” demonstrados pelo personagem quando da perda da filha Sara.
- DMenosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma confraria e membro remido de várias irmandades.
- EInsinuar que o cunhado era um homem vaidoso e egocêntrico, contemplado com um retrato a óleo.
Como resolver a questão 109 passo a passo?
O conceito que resolve
A ironia em Machado de Assis consiste em expor uma ideia com aparência de sinceridade, mas carregada de subentendidos críticos ou distanciamento irônico. No texto, Brás Cubas finge elogiar Cotrim, mas suas justificativas (como atribuir a crueldade com escravos ao 'trato duro' do contrabando) revelam uma moral ambígua. A ironia aqui serve para expor contradições humanas e sociais, típica do Realismo, que desconstroi valores absolutos. O comando pergunta como Brás Cubas usa essa ironia para refinar sua percepção sobre Cotrim, ou seja, como ele emprega o tom irônico para criticar ou relativizar traços do personagem.
Como chegar na resposta
- Identificar a ironia no texto: Brás Cubas elogia Cotrim, mas suas palavras escondem críticas ou relativizações. Por exemplo: 'avareza é exageração de uma virtude' ou 'efeito de relações sociais' para justificar a violência contra escravos.
- Analisar cada alternativa em relação ao comando: O comando pergunta como Brás Cubas 'refina a percepção irônica' ao descrever Cotrim. Ou seja, qual alternativa mostra o uso da ironia para revelar uma crítica ou ambiguidade moral?
- Eliminar alternativas que não usam ironia ou distorcem o texto: Por exemplo, a alternativa que fala de vaidade (E) não está no texto; a que acusa Cotrim de injustiça na herança (A) não é tema do trecho.
- Focar nas justificativas irônicas: A ironia está em Brás Cubas atribuir ações moralmente questionáveis a 'efeitos externos' (como o contrabando de escravos) ou em destacar 'provas' de bondade (amor aos filhos) que são, na verdade, ambíguas (ele era avarento).
- Verificar qual alternativa captura essa estratégia irônica: A alternativa que menciona 'efeito de relações sociais' para justificar a violência contra escravos é um exemplo claro de ironia, pois Brás Cubas usa uma desculpa social para minimizar a crueldade.
- Confirmar que as outras alternativas não se encaixam: As demais ou não são ironias ou não estão no texto (como vaidade ou menosprezo por irmandades).
Por que cada alternativa
- AErro: Confunde motivação com contexto. A alternativa sugere que Brás Cubas acusa Cotrim de avarento para justificar sua própria injustiça na herança. Isso não aparece no texto. O foco não é a divisão de herança, mas a descrição irônica do caráter de Cotrim. Além disso, a ironia não está em uma acusação direta, mas em justificativas ambíguas.
- BResposta correta: Captura a ironia do texto. Brás Cubas usa a expressão 'efeito de relações sociais' para justificar a naturalidade com que Cotrim prendia e torturava escravos. Isso é irônico porque, em vez de condenar a violência, ele a atribui a circunstâncias externas (o contrabando), minimizando a responsabilidade moral de Cotrim. Essa é a percepção irônica refinada pelo narrador.
- CErro: Leitura superficial do texto. Embora Brás Cubas mencione os 'sentimentos pios' de Cotrim (amor aos filhos e dor pela morte de Sara), isso não é uma ironia, e sim uma afirmação direta. A ironia está em como ele justifica outros traços (como a avareza ou a violência), não em elogiar seus sentimentos. Além disso, o comando pergunta pela 'percepção irônica refinada', não por uma observação direta.
- DErro: Inversão de valores. A alternativa sugere que Brás Cubas menospreza Cotrim por ser membro de irmandades, mas o texto diz o contrário: ele usa a participação em irmandades como 'prova' de que Cotrim tinha 'sentimentos pios'. Não há ironia ou menosprezo aqui, e sim uma tentativa de reabilitar sua imagem.
- EErro: Dado inventado. O texto não menciona vaidade ou egocentrismo de Cotrim. A menção ao retrato a óleo é usada para mostrar que o benefício das irmandades 'não caiu no chão' (ou seja, Cotrim recebeu um retrato), mas não há insinuação de vaidade. Essa alternativa distorce o conteúdo do texto.
Onde essa questão derruba a maioria
A alternativa E é uma pegadinha porque introduz um tema não mencionado no texto (vaidade/egocentrismo) e usa um detalhe real (o retrato a óleo) para criar uma interpretação falsa. Já a alternativa B é atraente porque o trecho menciona explicitamente 'efeito de relações sociais', mas o desafio está em perceber que isso é uma justificativa irônica, não uma descrição literal.
O que estudar se você errou
Releia o trecho que fala da violência contra escravos: 'ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que [...] habituara-se [...] ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.' A ironia está em Brás Cubas usar uma desculpa ('efeito de relações sociais') para isentar Cotrim de culpa. Isso é central no comando.
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